Sempre que vagueio apática por estas ruas frias e hostis
Pobremente iluminadas por velhos e acabados candeeiros,
Apoios para prostitutas velhas e cansadas e criaturas bêbedas,
O nevoeiro de noites invernosas atrai as lágrimas.
Típico das grandes cidades velhas quase inalteradas
As ruas dispõem-se confusas e complicadas
Sujas e imundas de pensamentos e acções.
E deixo-as cair livremente, escondidas na humidade.
Caem por aqueles que se abraçam e tocam na noite
Sempre iludidos que o amor é eterno e forte
E esperançados da sua sobrevivência à Morte.
Mas nunca se tornam um só, nunca se tocam por dentro.
Choro por aqueles que já não sonham ou devaneiam
Pessoas que se perderam nalgum caminho e vivem,
Até ao fim, despertos na realidade, e infelizes
Sem coragem para caminhar resolutamente de encontro
À feroz e agonizante luz de um novo dia.
Choro por todos os habitantes da escuridão
Que têm algo inda mais negro em cada coração,
Porque ninguém lhes diz palavras deleitosas de verdade.
Por isso se escondem nas sombras de ruas frias.
Choro por todos aqueles que tiveram um céu aberto
Mas tão tristes foram que não conseguiram abrir asas e voar.
Choro porque também não consegui fugir para longe do nevoeiro
através do meu céu desimpedido e pertenço a estas ruas.
Mesmo assim...não consigo parar...
De ansiar por um beijo nas minhas noites sempre iguais
Em que me entrego a sonhos e ilusões de amor
E em que sou apenas tocada superficialmente
Como uma esperança quebrada, sem casa nem destino.
Tornei-me alguém que desconheço... tão fria e solitária.
E afasto os meus lábios num grito silencioso,
A dor dentro de mim já não possui voz nem força
E que as lágrimas já gritaram toda a angústia.
Tornei-me igual a todos os caminhantes da noite, espectros doentios,
Com os mesmos anseios, medos e pecados de quimérico amor.
A primeira lágrima foi tão ardente, tão triste e tão frágil
Que se perdeu na humidade duma qualquer noite lúgubre.
As ruas, de piso sempre molhado e traiçoeiro, sempre escuras
Sempre iguais a tantas outras ruas perdidas ou esquecidas,
São ruas silenciosas onde nenhum coração bate ou adora.
Ninguém as ama, ninguém lhes quer pertencer...
Todos os corpos sem vontade, sem alma, as odeiam
Pois seus limites são como correntes nos cadavéricos pulsos
De enfermos de amor, de esperança, de verdade e de liberdade,
Que não existe.
As lágrimas que choramos, ardentes, tão certas como as trevas
Afogam-nos.
Lágrimas nascidas de pecados que nenhum pecado extingue
E que no entanto não deixam de ser excruciantemente belas.
Todas as nossas orações se desfazem e se quebram
E nós quebramos com elas como espelhos atirados às paredes
Sem os braços de alguém amado para apanhar os estilhaços
Sem alguém para apanhar os pedaços de almas despedaçadas.
Na névoa eterna há uma dança sem fim de ódios e destruição
Indagando feroz, quantos destinos temos ainda que aceitar
Quantas mais feridas na eterna noite temos que sofrer.
Nunca terá um fim?
Promessas foram feitas para serem quebradas e com medo
de morrer outra vez fechamos os olhos à realidade.
Caminhamos nas sombras debaixo da neblina
Soltando suspiros de amor mesmo sabendo que é mentira
Aquilo que lutamos por não sentir tão fortemente.
As lágrimas nunca deixarão de rolar pelas nossas faces.
Até ao limite da nossa mortalidade nada mais sentiremos
Que a dor de viver sem sonhar e sem verdadeiros tangidos
De amor.
Os templos que frequentamos não são feitos de ouro e prata,
São sim, feitos de outros sonhos que já ninguém se lembra
De ter sonhado. São feitos de cobardia, um ou outro coração,
Carícias antigas já esquecidas e estrelas outrora brilhantes.
São templos de escuridão, onde se cantam decrépitos lamentos
Por cada espectro negro que inda vive a carpir a sua má sorte.
Em ruas ladeadas por paredes húmidas, cinzentas e velhas,
Há sempre alguém que adormece para lá da esperança de acordar,
E que aceita e abraça a escuridão que afoga sem escrúpulos
E abate resquícios olvidados de vidas passadas de luz e brilho.
Enquanto caminhamos por estas ruas de prostitutas e velhos bêbedos
E choramos toda a amargura de vários corações e aqui perdidos
Tentamos desesperadamente pintar o amor a falar com a tristeza,
A caminhar ao lado dela.
Aquele amor traidor que ama apenas a si próprio e nada mais
E ensandece quem demasiado fraco é para lhe resistir às seduções
E ardis brilhantemente compostos para esmagar corações fatigados.
“Eu amo-te” é uma mentira cruel que parte um Homem em dois.
“Preciso de ti”. Embuste amargo para quem já não consegue sofrer,
quando o Amor e a Morte se abraçam na noite como pano de fundo
e magoam quem não se pode defender e limita-se a sangrar
De corações outrora inflamados com avassaladora paixão.
Quando levamos o Amor e a Morte para o nosso quarto escuro
Enlevados nas suas carícias obscenas não vemos a beleza do Amor
A premir o gatilho da arma apontada à nossa cabeça nem sentimos
As gélidas mãos da Morte a forçar os nossos joelhos para o chão.
As lágrimas que soltamos são murmúrios de cruéis anjos lucífugos
Que ampliam nossos sonos pejados de todos os medos inconscientes,
Que nos visitam e prendem num mundo em tudo igual ao nosso.
Sem luz.
Somos todos o mesmo. Novos, temerosos, lacrimosos. Vazios...
A noite finalmente abre toda a magnificência das suas asas
Como um monstro alado de antigas lendas há muito esquecidas
E envolve todos os espectros que a habitam no silêncio das ruas,
Em sombras mais negras que a sua própria escuridão.
As lágrimas que caem de tantos os olhos começam a arrefecer
Quebram e acabam por desaparecer até a noite nos soltar de novo.
E nós desaparecemos outra vez, com todo o encanto novamente,
Ido com o pecado.