Passeiam na minha alma, como num jardim.
O desespero tenta convencer o amor
Mas tudo o que consegue fazer em mim
É caminhar junto a ele, e falar de dor.
Caminha orgulhoso da solidão que coagiu
E o amor, alado, imaterial, caminha mudo;
Não se distrai ao relembrar aquilo que partiu
E evita... luta. Para não cair no fundo.
Caminham juntos como velhos amigos,
Lado a lado, corteses e disciplinados.
Continuam em sentido ao meu coração:
Um grande vazio cheio de escuridão.
Passam o sítio onde a esperança um dia habitou,
Até que foi levada quando um Fado cruel soprou
A sua casa de lembranças deixada então a morrer
E a afastou para lá de um esplendoroso amanhecer.
Passam ainda um templo onde já houve Fé
E agora é uma casa de ateus e agnósticos
Corajosos e valorosos lutam contra a maré
À sombra de imponentes e belos pórticos.
Vão orgulhosos de algo que os faz sofrer
E tão dorido é que mal conseguem respirar;
E uma mão esmagadora os faz perder
Algo ainda mais precioso que o próprio ar.
Passeiam tão alheados ao caminho que tomam
Acabam assim por ficar perdidos num labirinto
De onde não conseguem sair mesmo que movam
O que lhes tolda a passagem: um só sentimento.
Cessam as suas infrutíferas tentativas de libertação
E ficam a olhar o que permanece deitado no chão:
Um único sentimento ali esfarrapado e abandonado
Com aspecto sombrio, triste e algo mal amado...
Quedam-se os três a divisar nos seis olhos
Vários desejos encobertos e vários sonhos
E percebem que o que os une é algo forte
Mas, para bem ou mal, não venceu a Morte.
Assim se deixam estar, imóveis com o achado
E buscam nos recônditos das mentes lembranças
De alguém, algum ente há já algum tempo finado
Um alguém que fez brotar inúmeras lágrimas.
Seus olhos enchem-se então de complacência
Sentidos por tudo o que fizeram e sentiram
Sob um azul céu e sentem ora uma dormência
Dádiva do sentido agonizado no solo: a Paixão.
16 de junho de 2009
Publicada por Carla Ramos à(s) 6/16/2009
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