Na rua escura caminha desnuda
A mulher infame, femme-fatale:
Velha mascarada de nova
Que nem com tanta tinta na cara
Se afasta muito da cova.
Caminha com andar bamboleante
Aos trausentes pisca o olho, prazenteira
À cata de incauto homem
Que a leve para esteira
E em troca lhe dê uns trocos.
Na esplanada senta-se de perna traçada,
De decote descido e saia arregaçada.
Puxa do cigarro, puxa do isqueiro.
Só não puxa da carteira,
Porque nela não há dinheiro.
Em becos escuros faz o seu trabalho
De velha e caquética rameira,
Mas o negócio parece fraco
Pelo que se vê na carteira.
(“É a crise!” diz ela.
Resta saber se a geral
Ou só a dela).
Bem estranhavam as pessoas
Do seu andar tão normal.
Até já se alcovitava que
O negócio ia mal,
Que gastava mais do que ganhava
Que já comia mais a boca de cima
Do que a que se tem em baixo.
A concorrência aumentava,
O dinheiro dimínuia,
Sinal que já nem entrava
Aquilo que ela mais queria.
E então que faria ela
com seu corpo tão quebrado?
Porque entendia que era muito nova
Para pensar em reforma antecipada.
E então pudera!
Se o cálice estava seco, se a fonte não tinha água.
A idade não perdoa,
Nem a má-vida que levava.

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